Dor na virilha em atletas

Objetivo:

Organização

 
O recente caso Balotelli chamou novamente a atenção para uma patologia que não era mencionada há muito tempo no panorama do futebol profissional, ou seja, a dor na virilha, que parece sempre trazer consigo um ar de mistério. 
 

UM POUCO DE INFORMAÇÃO

Como é que ainda hoje a dor na virilha é, na opinião de muitos autores, um dos temas mais investigados e menos compreendidos da medicina desportiva moderna? O segredo está escondido no próprio termo.

“Pubalgia” (do latim “pubis” e do grego “algos”) significa literalmente “dor na virilha” e, portanto, não pode indicar uma patologia, mas apenas um sintoma.

A última definição foi dada por Busquet no seu livro “As cadeias musculares 3. A Pubalgia”: “o aparecimento de sintomas localizados ao nível do púbis com dor irradiando para os adutores, abdominais e ligamentos inguinais”; o autor continua afirmando que “o diagnóstico de dor na virilha é apenas uma constatação, pois não explica a causa. No campo do desporto, a dor na virilha é um dos diagnósticos mais controversos, não tanto pela identificação dos sintomas, mas pela determinação das causas da lesão sofrida pelo paciente”. Esse é o ponto crucial: identificar corretamente a causa para tratar corretamente a patologia. Isso está longe de ser óbvio, e Jarvinen et al, 97, identificaram até 72 entidades clínicas diferentes, a maioria das quais diz respeito a distúrbios musculo-tendinosos e osteoarticulares, mas também patologias infecciosas, vasculares ou tumorais, bursites, compressões nervosas e outras. Tudo isto só confirma a importância fundamental de um diagnóstico correto como condição essencial para planear um tratamento racional e eficaz da lesão.

 

DICAS ANATÔMICAS

A pélvis (Fig. 1) é um grande anel osteoarticular fechado que forma a parte inferior do tronco; forma a estrutura abdominal e conecta os membros inferiores com a coluna vertebral. É delimitada por quatro ossos: dois ossos do quadril unidos centralmente pela sínfise púbica e separados dorsalmente pelo sacro, com o qual se articulam, e o cóccix. A pélvis inclui quatro articulações: duas articulações sacroilíacas, a sínfise púbica e a articulação sacrococcígea.

 
bacino pubalgia anatomia

Fig. 1: Pélvis

(A) Osso do quadril; (B) Sínfise púbica; (C) Sacro; (D) Cóccix

 
Vários grupos musculares estão presentes na pélvis (Fig. 2-3). Os músculos abdominais inseridos ao nível do púbis são responsáveis pela flexão do tronco, estabilização e fixação da pélvis durante os movimentos do membro inferior; os músculos glúteos que auxiliam na extensão dos quadris e na posição vertical; os músculos trocantéricos, assim chamados porque se originam nos ossos da pélvis e se estendem até o fêmur, e ativam os movimentos da coxa. Os músculos da coxa são agrupados da seguinte forma: flexores do quadril (particularmente o iliopsoas), extensores (quadríceps em primis), flexores da perna na coxa (isquiotibiais): Os músculos da região medial da coxa têm uma função adutora, ou seja, aproximam o membro da linha medial, enquanto os músculos da região lateral têm uma função oposta (abdutores) e incluem o tensor da fáscia lata, glúteo mínimo e glúteo médio. 
 
bacino muscoli posteriore pubalgia
Fig. 2. Músculos da pélvis. Vista frontal.    Fig. 3. Músculos da pélvis. Vista traseira. 
 

Fig. 2: (A) Reto abdominal; (B) Iliopsoas; (C) Abdutores (tensor da fáscia lata), (D) Adutores; (E) Quadríceps.

Fig. 3.: (A) Glúteo médio (sobre o Glúteo mínimo); (B) Isquiotibiais; (C) Glúteo máximo.

 

PUBALGIA EM JOGADORES DE FUTEBOL: ETIOLOGIA, MOVIMENTOS TÉCNICOS E FATORES PREDISPONENTES

De acordo com a literatura, as lesões de origem musculoesquelética ou osteoligamentar reveladas pela dor na virilha representam 5,18% de todas as lesões que ocorrem no futebol. Vejamos por que esse número é tão alto. O futebol inclui muitos movimentos técnicos que podem favorecer os sintomas: saltos, dribles, mudanças de direção, carrinho, são todos fatores que causam uma tensão considerável na zona da sínfise púbica.

No seu interessante estudo, Busquet (1998) sublinha que muitos anos antes da pubalgia surgir nos jogadores de futebol, certas compensações podem ser percebidas, principalmente durante o chute. Na opinião do autor, uma boa técnica de chute requer que:

  • A perna de apoio e a perna de chute estejam retas
  • O ângulo de flexão do quadril seja considerável
  • Quanto mais extensível for a cadeia posterior, mais livre será o movimento do quadril

Essa liberdade proporciona um bom controle da bola com movimentos soltos, ergonômicos e eficazes.

De qualquer forma, se a elasticidade dos músculos posteriores for fraca, o jogador tentará defendê-los aumentando a flexão do joelho, ou limitando o ângulo de flexão do quadril. Além disso, mesmo que a amplitude da flexão do quadril diminua progressivamente, o jogador deve manter-se amplo para preservar a força do chute. Tudo isso é compensado com uma adução e rotação interna no final do chute. Conforme apontado por Busquet (1998), qualquer jogador pode fazer uso de uma dessas compensações durante o jogo, mas é a repetição regular desses movimentos que deve levantar suspeitas para o treinador ou o terapeuta da equipe.
 

É importante enfatizar o enorme trabalho realizado nessas compensações pelos abdominais (eles contribuem para a elevação dos ramos púbicos no balanço do chute, para a queda dos ombros e uma cifose lombar também), o iliopsoas (que realiza a flexão rápida do quadril em sinergia com o reto femoral) e os adutores. O trabalho excessivo desses músculos causa:

  • Suscetibilidade desses músculos: contrações, estiramento, lacerações;
  • Inflamação;
  • Dor púbica
 

Uma longa série de fatores intrínsecos e extrínsecos que favorecem o aparecimento dos sintomas deve ser adicionada às observações acima. De acordo com Bisciotti, possíveis fatores intrínsecos são:

  • Uma clara assimetria das pernas;
  • Uma lordose lombar excessiva;
  • Um desequilíbrio funcional dos músculos abdominais e adutores, ou seja, quando os músculos abdominais são mais fracos do que os músculos adutores.
  • Uma patologia do quadril ou da articulação sacroilíaca.
 

Possíveis fatores extrínsecos incluem:

  •                Materiais inadequados usados na atividade (sapatos desconfortáveis, chuteiras de ferro usadas em terrenos duros ou chuteiras de borracha em terrenos lamacentos, etc.)
  •                Campos de jogos acidentados
  •                Erros no planeamento do exercício.

 

Nesse sentido, uma atividade de treino que considera o corpo humano como um todo e se baseia no conhecimento e respeito das regras fisiológicas é o melhor tratamento preventivo (Busquet 1998). Portanto, uma sobrecarga funcional deve ser evitada por meio da colaboração entre o treinador, preparador físico e fisioterapeuta, a fim de garantir as condições físicas ideais dos jogadores e evitar que problemas aparentemente triviais levem a uma subversão do equilíbrio muscular e dor púbica (contraturas, articulações doloridas, etc.). De acordo com Busquet (1998), é importante identificar morfotipos de risco, ou seja, controlar aqueles atletas cujas características físicas podem ser um “caldo de cultura” para a dor na virilha, como os jogadores que apresentam uma rigidez acentuada dos músculos posteriores da coxa.
 

O QUE FAZER SE A DOR NA VIRILHA APARECER

Quando a dor na virilha aparece, os sintomas não devem ser subestimados (como muitas vezes acontece) e um médico competente deve ser procurado o mais rápido possível para realizar uma avaliação clínica da lesão e, se necessário, solicitar exames específicos. Enquanto isso, em muitos casos, a dor será aliviada com aplicações de compressas de gelo (pelo menos duas vezes ao dia por 15-20 minutos no máximo) ou medicamentos anti-inflamatórios não esteroides (sob orientação ou prescrição médica apenas). O repouso completo é absolutamente necessário, pelo menos até a avaliação médica ou fisioterapêutica, ou até a resolução completa dos sintomas.

 

TRATAMENTOS

A primeira abordagem é um tratamento conservador que consiste num período inicial de repouso ou atividade limitada, terapia medicamentosa e fisioterapia. A fisioterapia pode incluir tratamentos físicos (eletroterapia, tratamento a laser), técnicas manuais para o tratamento de tecidos moles e estruturas articulares, como manipulações ou mobilização (Weir 2011, Weir 2009), terapia de exercícios para aumentar a força e melhorar a coordenação dos músculos que estabilizam o quadril e a pélvis (Weir 2011, Verrall 2007, Holmich 1999).

Revisões recentes da literatura indicam que a terapia manual permite um retorno mais rápido à atividade do que a terapia de exercícios; de qualquer forma, os pacientes que realizam exercícios para reforçar os músculos abdominais e adutores, alongamentos e exercícios funcionais para a estabilização e coordenação da pélvis obtêm melhores resultados do que aqueles que recebem terapia manual (Almeida 2013, Marcon 2015).

Se os resultados obtidos com a abordagem conservadora não forem satisfatórios, são utilizados medicamentos anti-inflamatórios não esteroides, esteroides e/ou proloterapia (técnicas que incluem a injeção de medicamentos que estimulam a proliferação de fatores de crescimento, de forma a promover a cicatrização dos tecidos). Se os sintomas não desaparecerem, a cirurgia torna-se necessária e cura cerca de 90% dos casos.

 


BIBLIOGRAFIA

  • Almeida MO e coll. 2013, “Intervenção conservadora para o tratamento da dor na virilha musculo-tendinosa, ligamentar e óssea relacionada ao exercício”;
  • Bisciotti N. 2009, "A Pubalgia do Atleta, Enquadramento clínico e estratégias terapêuticas";
  • Busquet L., 1998, "As cadeias musculares vol. 3, A pubalgia";
  • Holmich 1999; “Eficácia do treino físico ativo como tratamento para dor na virilha relacionada com o adutor de longa duração em atletas: ensaio randomizado”;
  • Marcon F. 2015, “Revisão da literatura com meta-análise sobre a eficácia da terapia manual e do exercício terapêutico no tratamento da pubalgia no atleta”.
  • Paajanen 2011; “A cirurgia laparoscópica para dor crónica na virilha em atletas é mais eficaz do que o tratamento não cirúrgico: um ensaio clínico randomizado com ressonância magnética de 60 pacientes com hérnia do desportista (pubalgia atlética)”;
  • Passigli S. 2006; “Pubalgia e disfunções estruturais no cíngulo pélvico: avaliação e tratamento”;
  • Verrall 2007 “Resultado do tratamento conservador da lesão crónica na virilha atlética diagnosticada como lesão por stress no osso púbico”; 
  • Weir A. 2011;“Terapia manual ou de exercício para dor na virilha relacionada com o adutor de longa duração: um ensaio clínico controlado randomizado”; 
  • Weir A. 2009; “Uma técnica de terapia manual para dor crónica na virilha relacionada com o adutor em atletas: uma série de casos”.

 

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